terça-feira, 24 de março de 2026

Sobre um capítulo que ficou por aqui… e que ainda precisa circular
Em meio às múltiplas demandas da vida acadêmica — prazos, aulas, orientações, escrita — acabei deixando passar algo importante: não compartilhei aqui no blog um capítulo que publiquei, em coautoria com Emanuelle Barbosa (acesse aqui). O texto integra o livro Finalidades educativas escolares e didática: ressonâncias da pandemia (2023), obra que reúne análises sobre os impactos da pandemia na educação brasileira, especialmente no que se refere às políticas educacionais, ao trabalho docente e às disputas em torno das finalidades da escola . Nosso capítulo, intitulado “O ensino híbrido: quem ganha com a destruição da educação presencial?”, parte de uma inquietação que permanece atual: o que está em jogo quando o ensino híbrido é apresentado como solução inevitável para a educação? Mais do que discutir metodologias, buscamos compreender o movimento histórico e material que sustenta essa agenda. Partimos do entendimento de que a educação, longe de ser um campo neutro, está inscrita nas determinações do modo de produção capitalista e, portanto, atravessada por suas contradições. Nesse sentido, dialogamos com a tradição marxista ao compreender que as transformações educacionais contemporâneas não podem ser dissociadas dos processos de reestruturação do capital. A incorporação das tecnologias digitais, nesse contexto, não é apenas inovação: ela se articula à intensificação da exploração do trabalho, à ampliação de mercados e à produção de novas formas de controle — inclusive sobre o trabalho docente. Como já apontava Marx, o desenvolvimento das forças produtivas no capitalismo não se dá em benefício direto dos trabalhadores, mas sob a lógica da acumulação. No campo educacional, isso se expressa na crescente subordinação da escola às demandas do mercado, na transformação do conhecimento em mercadoria e na redefinição do professor como operador de plataformas, mediador técnico ou gestor de competências. A partir da Análise de Discurso, evidenciamos como o ensino híbrido é apresentado sob uma aparência de neutralidade e modernização, mas opera ideologicamente ao deslocar o debate das condições materiais da educação para a esfera das soluções técnicas. Trata-se de um movimento que obscurece as determinações estruturais e naturaliza a precarização. Aqui, a noção de ideologia é central: não como simples “falsa consciência”, mas como forma material de produção de sentidos que organiza o modo como a realidade é percebida e legitimada. O discurso da inovação, da flexibilidade e da personalização cumpre, assim, uma função específica: tornar desejável aquilo que, em última instância, atende à racionalidade do capital. Nessa direção, o ensino híbrido aparece menos como alternativa pedagógica e mais como parte de um projeto de reconfiguração da educação pública, alinhado à lógica neoliberal, que desloca responsabilidades para o indivíduo, fragmenta o currículo e enfraquece a dimensão coletiva e formativa da escola. Talvez o ponto central do texto seja este: não estamos diante apenas de mudanças tecnológicas, mas de uma intensificação da subsunção da educação ao capital. Retomar esse debate agora é ainda mais urgente. Em um cenário marcado pela expansão das plataformas digitais, pela centralidade da inteligência artificial e pela hegemonia de políticas educacionais orientadas por competências, precisamos recolocar a questão em seus termos mais concretos: quem controla, quem lucra e quem trabalha nessas novas configurações da educação? Para quem tiver interesse, o livro está disponível gratuitamente, e o capítulo pode ser acessado a partir da página 316. Seguimos pensando — e, sobretudo, tensionando as evidências que nos são apresentadas como inevitáveis.

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